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De quem é São Paulo: dos brasileiros ou do ‘Nosso Senhor Jesus’?

Crescente interação entre políticos e religiosos agrava vícios de representatividade congressual


José Eduardo Faria | Jota


Empoderados por governos municipais, estaduais e federal, igrejas neopentecostais e pastores evangélicos vêm se multiplicando no país, obtendo as mais variadas concessões do Poder Público em troca de apoio político a forças políticas, especialmente as situadas no espectro da direita e da extrema direita.


A mais recente concessão foi feita pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que liberou essas entidades religiosas de pagar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na aquisição de bens importados, com a condição de que eles sejam “essenciais” ao funcionamento das igrejas.


Em março do ano passado, Tarcísio já havia sancionado um projeto de lei que torna a Marcha para Jesus um patrimônio histórico imaterial do estado de São Paulo. No evento deste ano, realizado em 30 de maio, entre os pastores e bispos que discursaram um apontou o atual governador paulista como um possível candidato presidencial nas eleições de 2026. Ao agradecer, Tarcísio afirmou que a marcha foi “uma grande oportunidade de a gente agradecer e louvar nosso senhor Jesus Cristo e mostrar que São Paulo é do Nosso Senhor Jesus”.


Essa crescente interação entre políticos pretendentes a ocupar cargos públicos e a multiplicação de lideranças religiosas envolve os mais variados problemas. Ao privilegiar alguns pastores que tratam fiéis não como ovelhas, mas como gado, essa interação agrava os vícios de representatividade congressual que põem em risco a legitimidade do próprio processo democrático.


Desvia para grupelhos privados recursos públicos que poderiam ser melhor aplicados em projetos de interesse da comunidade. Igualmente, concessões paroquiais também afetam a qualidade da ação governamental. Inviabilizam tentativas de racionalização dos diferentes níveis e setores da máquina administrativa dos entes subnacionais da federação brasileira. Ampliam a porosidade na diferenciação entre interesses públicos e interesses privados, ao mesmo tempo em que dificultam uma coordenação nacional com base em um projeto de nação.


As divagações bíblicas desse pessoal também tendem a manter cegos os segmentos sociais mais atrasados – justamente aqueles que frequentam seus templos e, com seus dízimos, garantem o caixa das igrejas neopentecostais.


Pregações vazias, simplistas e alienantes impedem esses fiéis de refletirem sobre suas condições de vida e sobre a imoralidade do que lhes é pedido em nome da fé. Afirmações políticas no sentido de que as instituições judiciais devem observar a “vontade do povo” no julgamento dos processos em que o ex-presidente Jair Bolsonaro é réu, pois caso contrário a reação dos fiéis será “feia e os caras (os ministros dos tribunais superiores) vão ver o problema que eles vão arrumar”, soam como uma reprodução caricata da barbárie do nazifascismo de cem anos atrás, na Alemanha e na Itália. Seria cômico, se não fosse trágico – quem prega a fé, pratica a intolerância, disseminando o discurso de que quem não é amigo e fiel é inimigo, pecador e herege.


Não é só. A crescente interação entre políticos oportunistas pretendentes a ocupar cargos públicos e a multiplicação de determinadas lideranças religiosas neopentecostais, para as quais a religião deve prevalecer sobre todas as esferas de vida de seus fiéis, gerou outro problema preocupante. Trata-se dos desdobramentos da conversão do púlpito em tribuna política.


Parte expressiva dessas lideranças é retrógrada e reacionária. E, ao contrário do que aparentam, suas pregações não se baseiam em um conjunto articulado de crenças, ideias, fundamentos e regras encaradas como as únicas verdadeiras e legítimas. Fundada apenas com base em lugares comuns e interpretações primárias de passagens bíblicas, a pauta do evangelismo neopentecostal não é só obscurantista. Também contém um projeto a um só tempo reacionário e autoritário de poder – é aí que está o perigo.


Desprezando a Constituição, que é clara e afirmativa ao fazer uma distinção entre Estado e religião, essas lideranças defendem a sujeição dos diferentes espaços e esferas da vida social à perspectiva única, alienante e sectária da religião. Em outras palavras, essas lideranças são avessas à contemporaneidade. Por consequência, são contrárias aos princípios básicos de uma sociedade aberta, pluralista e republicana – mais precisamente, uma sociedade tolerante, que valoriza a liberdade e a autonomia pessoais e que aceita como natural a diversidade, as diferenças e as divergências em matéria de valores morais, políticos e religiosos.


Por isso, ao conceder isenção tributária na importação de bens a instituições religiosas, o governador não agiu apenas como mais um político oportunista – entre os inúmeros que surgiram com a ascensão do bolsonarismo. Também mostrou ser um dirigente despreparado a serviço de um projeto que o cientista político Fernando Abrucio tem chamado de “iranização” ou “khomeinização” – ou seja, a tendência de subordinação da “leitura da realidade política e social à sua estrita moralidade religiosa”, por determinado setores da sociedade.


O dirigente que tomou essa iniciativa sob a justificativa de “São Paulo é do Nosso Senhor Jesus” é o mesmo que, poucos meses atrás, ameaçou reduzir as fontes de financiamento da USP, da Unicamp, da Unesp e da Fapesp, instituições criadas por dirigentes conscientes da importância do conhecimento e da pesquisa como fator de desenvolvimento e progresso. Foram eles, e não o “Senhor Jesus”, que criaram condições para São Paulo ser o que é hoje.

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