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Asa e instituições avaliam potencialidades e riscos das tecnologias sociais no Semiárido

Para além do reúso de águas cinzas, as águas de esgoto total também podem ser tratadas. As fossas biodigestoras são uma das tecnologias utilizadas para este fim.


Participantes do Seminário sobre Saneamento Rural com Tecnologias Sociais promovido pela ASA Brasil. (FOTO: ASA Brasil)

Lívia Alcântara/ASA Brasil, Danilo Souza/IRPAA, Thaynara Policarpo/ASA PB. Com colaboração de André Rocha/IRPAA

ASA BRASIL | Campina Grande (PB)


O “Seminário Técnico Científico sobre Saneamento Rural com Tecnologias Sociais de Reúso de Água”, organizado pela ASA, traz os resultados de uma série de experimentos com reúso de água colocados em prática no Semiárido brasileiro nos últimos anos.


O evento faz parte da construção de um programa próprio de saneamento rural com reúso de água enquanto uma política pública fundamental e teve como foco a análise da eficiência e do risco das tecnologias de saneamento.


Para Alexandre Pessoa da Fiocruz, “não existe saneamento rural, desvinculado da produção agrícola”. Neste sentido, Herica Cavalcante, professora da UFRN, defendeu que, em regiões com recursos hídricos escassos como o Semiárido, o esgoto pode ser um recurso hídrico alternativo e pode potencializar a agricultura. E de fato é nesta direção que as experiências desenvolvidas pela ASA têm apontado.


O Professor Genivaldo Barros, da UFRPE, por exemplo trouxe os resultados da experiência de reaproveitamento de águas cinzas em agroflorestas no Sertão do Pajeú e do Araripe, em Pernambuco. A pesquisa foi desenvolvida em parceria com o Centro Sabiá e o Caatinga e explora a quantidade e a qualidade da água cinza produzida, seus impactos sobre a produção de biomassa e sobre os solos irrigados.



Equipe do SEAPAC em parceria com UFRN e Engenheiros Sem Fronteiras divulgam ações da região de Lajes Pintadas no RN. (FOTO: ASA Brasil)

Fossas digestoras como alternativa de saneamento

Para além do reúso de águas cinzas, as águas de esgoto total também podem ser tratadas. As fossas biodigestoras são uma das tecnologias utilizadas para este fim. A tecnologia é bastante disseminada devido ao seu baixo custo (R$ 3 mil) e tem tido uma boa aceitação nas comunidades rurais de Lajes Pintadas (RN), que atualmente contam com 70 sistemas implantados, muitos deles fruto de replicação.


A UFRN, em parceria com a SEAPAC tem acompanhado a implantação e o controle da qualidade da água de esgoto tratada nesta região. O sistema implantado, chamado “Saneamento Fértil”, trata os efluentes do esgoto, permitindo reaproveitá-los na agricultura. Como resultado, a investigação identificou um aumento na produção agrícola e uma maior oferta alimentícia para os moradores e animais após a implantação do sistema.


Biogás a partir do esgoto?

A biodigestão é um processo complexo em que um consórcio de microrganismos degradam uma matéria orgânica e geram alguns produtos aproveitáveis. Um deles é o biogás, que no meio rural pode ser utilizado como substituto do gás de cozinha, outro é o biofertilizante, que pode ser utilizado para irrigar a agricultura, explica a bióloga e engenheira química da UFPE, Daniela Gomes.


Os biodigestores já vêm implantados por organizações que fazem parte da ASA, mas funcionam a partir de esterco animal e água. Uma pesquisa, ainda em andamento, da UFPE em parceria com a Diaconia, está testando a possibilidade de produzir um biogás a partir do tratamento de águas residuais, incluindo as fecais. Assim, além de ser uma alternativa para o saneamento rural, ele seria uma alternativa sustentável de geração de energia.


Daniela Gomes, autora do estudo e pesquisadora do PROTEN-DEN/UFPE, diz que os resultados preliminares são animadores, mas que a experiência ainda precisa ser replicada em escalas maiores e testada a partir de diferentes interferências externas.


(FOTO: ASA Brasil)

Qualidade da água do reúso

Durante o seminário, várias análises de qualidade da água foram apresentadas, assim como a média de volume de água reutilizada por família contemplada com os sistemas, na ordem de 50 mil litros de água por ano, o equivalente a uma cisterna de produção.


No geral, há um consenso entre os pesquisadores que os resultados apontam potencial na remoção de matéria orgânica e de microrganismos, bem como na preservação de nutrientes de interesse às plantas.


Entretanto, o monitoramento também indica que é necessário o comprometimento das famílias para a manutenção e manejo correto das tecnologias, e uma assessoria contínua para animação desse processo, sob risco de falhas no tratamento.


“Não precisamos nos desanimar diante riscos decorrentes do manejo, porque eles não são distintos daqueles decorrente do manejo da água de beber, e do preparo de alimentos, mas, manter a mesma atenção em relação ao aprimoramento das tecnologias, à apropriação das práticas de manejo requeridas pelas mesmas e das práticas de proteção e higiene pessoal, explica André Rocha, técnico do IRPAA que apresentou resultados de pesquisas realizadas em parceria com a Univasf, comparando a qualidade da água do esgoto bruto com a do efluente tratado com várias tecnologias.


Herika Cavalcante, assim como outros colegas presentes no seminário, chama atenção para o fato de que o monitoramento da qualidade da água produto do reúso ainda precisa ser expandido e melhorado.Também há necessidade de se discutir a padronização de alguns índices de qualidade da água.


Por uma política de saneamento rural

As experimentações com reúso de águas ganharam escala nos últimos 10 anos, e para a ASA, desde 2016 a pauta tem ganhado espaço. Em 2022, a articulação publicou uma carta política em que estabelece como meta implementar 200 mil cisternas de coleta e tratamento de esgoto e reúso de águas, avançando em uma política de saneamento rural pautada como uma das prioridades para os próximos anos.


“A experiência da ASA demonstra que ampliar a oferta de águas para usos múltiplos (banho, lavar roupa, lavar louça, etc.), também amplia a produção de alimentos saudáveis pelos/as agricultores/as, através da reutilização dessas águas nos sistemas produtivos e agroecológicos e na recuperação de áreas degradadas. É fundamental implementá-lo com significativa participação popular”, afirma o documento.


(FOTO: ASA Brasil)

No mesmo ano, ASA realizou o Seminário Saneamento Rural em Recife e deu início a experimentações com reúso de água nos estados do Semiárido brasileiro desde a perspectiva de que é preciso utilizar e reutilizar as águas totais das casas.


O “Seminário Técnico Científico sobre Saneamento Rural com Tecnologias Sociais de Reuso de Água” é o momento de avaliação dos resultados destas experimentações e consolidação de uma proposta de política pública de saneamento rural para o Semiárido.

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