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Água cinza, vida verde: inovação e sustentabilidade no Semiárido

Reduzindo o impacto da escassez hídrica: reúso de águas na produção da agricultura familiar

Intercâmbio entre famílias campesinas Alto Oeste potiguar, para trocar ideias sobre os sistemas de reúso. (Foto: Caio Barbosa - Núcleo de Comunicação | SEAPAC)

Marina Layssi - Assessoria de Comunicação | SEAPAC

Natal | Rio Grande do Norte


O cenário potiguar do Semiárido brasileiro, onde a escassez de água é uma realidade, há projetos que fornecem à população condições para uma melhor convivência com a Caatinga. Um desses projetos que transformam o cenário do Semiárido potiguar é o projeto: Água Semente da Vida - tratamento e reúso de águas cinza. Ele tem se destacado por oferecer soluções práticas e sustentáveis para o saneamento rural, a segurança hídrica e alimentar, a saúde humana e dos animais.


O projeto vem sendo desenvolvido desde 2022 com as famílias camponesas da região do Alto Oeste potiguar, nas cidades de Pau dos Ferros, Encanto, Doutor Severiano, São Miguel, Coronel João Pessoa e Venha Ver. No desenvolver, conta com parceria e financiamento do Banco do Nordeste, pelo convênio via Fundeci – Fundo de Desenvolvimento Econômico, Científico, Tecnológico e de Inovação.


De 2022 para cá, o projeto “Água Semente da Vida” vem realizando inúmeras ações junto as famílias que participam, está prevista para outubro deste ano a “Ciranda de saberes populares” momento final do projeto que irá reunir todas as famílias acompanhadas. A ciranda será um momento de comemoração e partilha entre as famílias que receberam o sistema de reúso de águas na sua casa e com isso houve a ampliação dos seus quintais agroecológicos. Para chegar até aqui, o SEAPAC construiu com as comunidades campesinas os primeiros passos.


O coordenador do projeto e engenheiro agrônomo do Seapac, Fabrício Edino, nos fala sobre o crescer desse projeto:

"No primeiro momento, no município de São Miguel, socializamos a ideia com as lideranças das comunidades e fizemos a seleção das comunidades, cerca de duas comunidades por município. No segundo momento, fizemos um cadastro de cada família e um diagnóstico de entrada para saber a real situação das famílias conhecidas. Agora, estão sendo feitas as visitas técnicas. Cerca de centenas já foram realizadas. Cada família recebe no mínimo cinco visitas técnicas por ano. O trabalho é feito nos dias de oficina, nas partilhas, na troca de mudas, nos cuidados do reuso de água. É um processo descentralizado e continuado.“

Tratamento e reúso de águas cinza: Segurança hídrica

Água cinza, um recurso muitas vezes desperdiçado, é aquela proveniente de atividades domésticas como a lavagem de louça, pias de banheiro e banho, além das máquinas de lavar. Esse recurso, jogado no solo de forma “natural”, é agressivo e contamina o meio ambiente. Porque ao invés dessa água com dejetos serem lançados diretamente no solo, formando esgotos a céu aberto, esses líquidos podem e devem ser tratados e reutilizados de forma segura e eficaz, evitando o desperdício da água e ampliando o armazenamento hídrico familiar. Para as famílias que vivem no Semiárido potiguar, esse sistema se tornou um grande aliado nos últimos anos, valorizando cada gota da água.


Aldeniza, beneficiada que mora na comunidade Perímetro Irrigado, em Pau dos Ferros, disse à equipe do SEAPAC:

“Antes do reúso, meu quintal já tinha algumas plantações. Quando o reúso chegou, aumentou o dobro de plantações e trouxe ainda mais variedade de plantas, sendo elas, frutíferas e medicinais”.

O projeto implementa um sistema inteligente de tratamento e reúso dessas águas, transformando-as em uma valiosa fonte para irrigar a produção de alimentos, ampliando a segurança alimentar das famílias participantes.

“É um sistema que traz muitos benefícios, traz saúde, pois além de reutilizar a água, tira o esgoto que vivia a céu aberto. Também, aprendemos a trabalhar com o sistema agroecológico no nosso quintal produtivo”.

Complementa Aldeniza, que hoje já comercializa os alimentos produzidos em seu quintal com o reúso de água.


Aldeniza com o desenho do seu quintal na partilha (Foto - Caio Barbosa - Núcleo de Comunicação | SEAPAC)


Para a construção do sistema de reúso, o processo é engenhoso e eficiente. Segue o seguinte passo a passo:


Escavação: Cavar o local onde o sistema será instalado, possivelmente perto da casa, onde pode fortalecer o quintal agroecológico


Construção do decanto digestor e tanque de Irrigação: são feitos de tijolos, cimento e canos.


Montagem das tubulações de filtração: são instalados dois tanques, que são despejados a água cinza. O primeiro é a caixa de gordura, que serve para separar resíduos gordurosos (a gordura, com o passar de um tempo, fica na parte de cima e não se mistura a água, decantando-se). Em segundo, vem o filtro biológico: Montagem da bomba para circulação da água, instalação do filtro e fixação dos pontos de irrigação.


Quando finalizado, fica assim: ao lado da casa e do quintal agroecológico, como mostra na foto a seguir


Reúso instalado na região do Alto Oeste potiguar (Foto: Caio Barbosa - Núcleo de Comunicação | SEAPAC)


Socialização da experiência em comunidade

O cultivo pode ser feito para uma variedade de plantas, incluindo frutíferas e forrageiras, como manga, acerola, moringa e até a leucena. O projeto é desenvolvido em várias etapas e com processos metodológicos diversificados. No final da instalação do sistema de reúso, os participantes receberam a doação de mudas nativas, frutíferas e forrageiras para ampliar seus quintais agroecológicos produtivos, e ao longo desses processos, foram realizados Dias de Partilhas do Seapac - uma metodologia própria da instituição - , além de intercâmbios municipais e intermunicipais com o objetivo de fortalecer a agricultura familiar da região do Alto Oeste.


O acompanhamento do SEAPAC junto às famílias não acaba com a instalação. A troca de experiência do Seapac com as comunidades campesinas e as associações rurais já passou dos trinta anos e segue em crescimento. As pessoas, seja em projetos de reúso ou de construções de cisternas, têm oportunidades de participar de diversas atividades junto a equipe, como encontros, oficinas, reuniões, visitas e dias de partilha de conhecimento e saberes.


Saneamento Rural e Reúso de Água

De acordo com a Lei 11.445/2007, saneamento básico consiste no conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de: 1) abastecimento de água potável, desde a captação até as ligações das casas; 2) coleta, transporte, tratamento e disposição final adequada de esgotos sanitários, desde as ligações até o seu lançamento final no meio ambiente; 3) coleta, transporte, transbordo, tratamento e destinação final dos resíduos sólidos; 4) drenagem e manejo das águas.


Em comunidades rurais como a de Seu Mazio, em São Miguel, ter esse saneamento torna os resultados visíveis e transformadores. Seu Mazio, um dos beneficiários do projeto, testemunha a diferença que o SEAPAC fez em sua vida e na vida de sua comunidade. Com um sistema de reúso de água implementado em sua propriedade, ele relata que o gado está mais saudável e produtivo, o que se reflete em um aumento significativo na produção agrícola.

"Cada gota d'água é fundamental".

Ressalta Seu Mazio. A eficácia e o impacto positivo do projeto não se limitam apenas ao aspecto econômico, mas também promovem a segurança alimentar, a saúde ambiental e a geração de emprego e renda nas comunidades atendidas.


Dia de Partilha do Seapac com troca de mudas e sementes crioulas no Alto Oeste. (Foto: Núcleo de Comunicação - SEAPAC)

Crescendo sementes

O Água Semente da Vida é mais do que um projeto de tratamento e reúso de águas cinza, é um exemplo inspirador de como o conhecimento científico aliado ao saber popular pode oferecer soluções concretas para os desafios enfrentados por comunidades em regiões semiáridas. Ao reduzir o impacto da escassez hídrica e promover a sustentabilidade em pequenos sistemas de produção, o SEAPAC está pavimentando o caminho para um futuro com produção alimentar o ano todo no Semiárido brasileiro, sem depender necessariamente de boas chuvas para crescer sementes. Cumprindo-se,

“Então, isso traz uma sensação de construção de um novo olhar, de um novo semiárido, de uma nova perspectiva, de desenvolvimento do Semiárido”, diz Fabrício Edino.

E quando chegar o bem vindo inverno na região, meses de chuvas e verde vívido geral, as famílias que têm projetos instalados, podem se dedicar à agroecologia, mas sem a necessidade de urgência. Com o sistema de reúso de águas, a preocupação com o plantio e o armazenamento da água e do alimento podem ser melhores distribuídos durante o ano.

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